O Pagador de Promessas
Dias Gomes — 1960

Personagens principais
Zé do Burro
Protagonista. Sitiante simples, crente, que fez promessa a Santa Bárbara de levar cruz pesada até Igreja de Santa Bárbara em Salvador, caso seu burro ficasse curado. Representa a fé popular ingênua e genuína, em conflito com a rigidez institucional.
Rosa
Esposa de Zé do Burro. Envergonhada com o sacrifício público do marido, seduzida pela cidade. Representa a fragilidade da fé diante do pragmatismo urbano e da pressão social.
Padre Olavo
Sacerdote que impede Zé do Burro de entrar na Igreja. Representa o dogma religioso institucional — a Santa Bárbara em questão seria sincretista (associada a Iansã no candomblé), inaceitável para a Igreja Católica.
Dedé
Oportunista que tenta explorar a situação de Zé do Burro para ganhos próprios.
Bonitão
Cafetão que seduz Rosa durante a noite que Zé passa em frente à Igreja, esperando poder entrar.
Enredo resumido
A promessa
No interior da Bahia, o burro de Zé do Burro fica doente. Zé faz promessa a Santa Bárbara (Iansã): se o burro sarar, carregará uma cruz de madeira do mesmo peso e tamanho que a da Igreja de Santa Bárbara em Salvador — e caminhará três léguas com ela nos ombros.
A chegada a Salvador
O burro sara. Zé cumpre a jornada com a enorme cruz. Chega à porta da Igreja de Santa Bárbara com Rosa e um grupo de seguidores improvisados. Mas o Padre Olavo recusa sua entrada.
O conflito
O motivo: a Santa Bárbara de Zé é sincretista — ele a confunde com Iansã do candomblé. A Igreja não pode aceitar promessa feita a uma santa misturada com religião de terreiro. Zé não entende — para ele, é a mesma santa. Aguarda em frente à Igreja durante toda a noite.
A erosão
Durante a noite: Rosa abandona Zé (seduzida por Bonitão). Oportunistas chegam. Jornalistas fazem da história notícia. A polícia é chamada. A multidão se forma — alguns a favor, outros contra. Cada grupo tenta instrumentalizar Zé para sua agenda.
O desfecho
Zé do Burro morre em confronto com a polícia ao tentar entrar à força na Igreja pela manhã. O povo carrega seu corpo para dentro da Igreja — a promessa é cumprida pela força popular, não pela Igreja. Vitória póstuma e trágica da fé popular.
Temas principais
Religiosidade popular vs Igreja institucional
Conflito central: a fé sincretista e genuína de Zé contra o dogma rígido. Dias Gomes critica a Igreja por afastar o povo simples com regras que não dialogam com a espiritualidade popular brasileira.
Exploração do simples pelo sistema
Zé é explorado por todos: pelo padre (negação), pela mídia (espetáculo), pelos políticos (bandeira), pela esposa (abandono). A inocência não é recompensa no mundo urbano moderno.
Sincretismo religioso brasileiro
A confusão entre Santa Bárbara e Iansã não é ignorância de Zé — é a realidade do Brasil profundo, onde o candomblé e o catolicismo coexistem há séculos. A peça defende esse sincretismo como legítimo.
Engajamento político do Teatro Brasileiro
Escrita no contexto do Teatro de Arena e do engajamento político da esquerda cultural brasileira dos anos 1960. Zé do Burro é o homem do povo esmagado pelas estruturas — religiosa, policial, midiática.

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Por que O Pagador de Promessas é importante para o vestibular?
É uma das obras mais importantes do teatro moderno brasileiro, indicada em vestibulares de todo o país. Temas recorrentes em questões: sincretismo religioso, crítica à Igreja institucional, exploração do trabalhador rural, engajamento político do teatro dos anos 60, tragédia do homem simples na cidade. O filme de 1962 (Palma de Ouro em Cannes) é frequentemente citado como referência cultural.
Qual a crítica de Dias Gomes à Igreja Católica?
A crítica é estrutural: a Igreja, ao recusar Zé do Burro, coloca o dogma acima da fé genuína — e ao fazê-lo, afasta exatamente as pessoas mais simples e devotas que deveriam ser seu rebanho central. Mas Dias Gomes não é maniqueísta: Padre Olavo não é vilão, é prisioneiro de sua instituição. A crítica é ao sistema, não ao indivíduo.
O desfecho é otimista ou pessimista?
Ambíguo — deliberadamente. Zé morre (pessimismo), mas o povo carrega seu corpo para dentro da Igreja (otimismo popular). A promessa é cumprida, mas ao custo da vida do promesseiro. Dias Gomes parece dizer: a vitória popular é possível, mas exige sacrifício — e chegará pelo povo, não pelas instituições.
Qual a relação com o cinema brasileiro?
O filme de 1962, dirigido por Anselmo Duarte com Leonardo Villar como Zé do Burro, é a única obra brasileira a vencer a Palma de Ouro em Cannes (principal premiação do cinema mundial). É marco do Cinema Novo e da cultura brasileira dos anos 60.
